Um sonho me acordou noite. Assim escurecida, eu era a minha sombra. Quando alguém sabe a sombra de si, assombra-se.
(II)
Outra noite sonhei e anotei: Devemos nos esforçar para cobrar o mais caro que possamos cobrar, a fim de que possamos cobrar o mais caro. Só não sei ainda com que mercadoria estava sonhando.
(III)
Meu pai vinha e perguntava onde estaria minha mãe. Respondi: Ela morreu. Ele: Bobagem, não existe morte. Ainda não acordei dessa informação.
(IV)
Minhas meias-noites têm auroras cheias de luz própria e atrevimento. O problema é que minhas idéias noturnas não raiam o dia. Preciso da noite para tecer sonho acordado e fantasiar a pele com poros de impurezas curativas.
(V)
Para perceber auroras à meia-noite: suba pelo atalho de um fio de luz da lua e alcance o balcão do sono; conte doze badaladas inaudíveis; suspire e respire o ar da madrugada, deixando escapar pelas narinas fragmentos de pensamento sonâmbulo. De olhos fechados, contemple agora a alvorada noturna: se a luz ofuscar, você será arrastado por ela para uma realidade inexistente, ofuscante não por sua existência desmentida, mas pelo pressentimento de sua ausência.
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